segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Mitologia Grega – Heróis – Teseu – Parte 1.......


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Teseu, em grego Theseús, talvez provenha de um elemento indo-europeu teu, "ser forte" > teues, "força" > te(u)s-o > teso > theso, isto é, "o homem forte por excelência", que libertou a Grécia de tantos monstros.
Quanto à genealogia do herói ateniense, é bastante verificar que o êmulo (competidor, rival) de Héracles possui em suas veias o sangue divino de três deuses: descende longinquamente de Zeus, está "bem mais próximo" de Hefesto e é filho de Posídon.
Esta é árvore genealógica do fundador mítico da democracia ateniense.
Herói essencialmente de Atenas, Teseu é o Héracles da Ática.
Tendo vivido, consoante os mitógrafos, uma geração antes da Guerra de Tróia, dois de seus filhos, Demofoonte e Ácamas, participaram da mesma.
Bem mais jovem que o filho de Alcmena, foi-lhe, no entanto, associado em duas grandes expedições coletivas: a busca do Velocino de Ouro e a guerra contra as Amazonas.
Como todo herói, "o filho de Posídon" teve uma origem deveras complicada. Segundo o mito, Egeu, rei de Atenas, não conseguindo ter um filho com várias esposas sucessivas, dirigiu-se a Delfos para consultar Apolo.
A Pítia respondeu-lhe com um oráculo tipicamente "Lóxias", proibindo-lhe "desatar a boca do odre antes de chegar a Atenas".
Segundo alguns intérpretes, a resposta oracular significava que Apolo proibia que o rei, antes de retornar a Atenas, tivesse qualquer contato sexual fosse com que mulher fosse.
Porém, não tendo conseguido decifrar o enigma, Egeu decidiu passar por Trezena, cidade de Argólida, onde reinava o sábio Piteu.
Foi no decorrer do percurso Delfos-Trezena que o rei de Atenas aportou em Corinto, exatamente no momento em que Medéia, no relato de Eurípides, Medéia, já decidida a matar Creonte, a princesa Creúsa e os próprios filhos, mas sem saber para onde fugir, resolveu tomar a decisão tremenda.
É que tendo recebido do rei de Atenas a promessa de asilo, em troca de "fazê-lo gerar uma descendência, por meio de determinados filtros", a desventurada esposa de Jasão encontrou, afinal, a saída tão ansiosamente esperada.
Eis suas palavras de júbilo, após o juramento do soberano da cidade de Palas Atená:
Ó Zeus, ó Justiça de Zeus, ó luz de Hélio!
Agora, amigas, bela vitória teremos sobre meus inimigos,
e já estamos a caminho.
Agora tenho esperança de que meus adversários serão castigados:
este homem surgiu quando estávamos a ponto de naufragar, como porto seguro de minhas resoluções, porto em que ataremos as cordas da popa, quando chegarmos à cidade e à acrópole de Palas.
Egeu haveria de lamentar, um pouco mais tarde, como se verá, o asilo inviolável prometido à mágica da Cólquida!
De Corinto o rei de Atenas navegou diretamente para Trezena.
Piteu, após ouvir a recomendação da Pítia, compreendeu-lhe de imediato, a mensagem.
Embriagou o hóspede e, mandando levá-lo para o leito, pôs junto dele sua filha Etra.
Acontece, todavia, que na mesma noite em que passara ao lado do rei de Atenas, a princesa tivera um sonho: aparecera-lhe Atená, ordenando-lhe que fosse a uma ilha bem próxima do palácio real, a fim de oferecer-lhe um sacrifício.
Ali lhe surgiu pela frente o deus Posídon, que fez dela sua mulher.
Foi desse encontro, nas horas caladas da noite, que Etra ficou grávida de Teseu, que o rei de Atenas sempre pensou tratar-se de um filho seu.
Temendo seus sobrinhos, os palântidas, que lhe disputavam a sucessão, o rei, após o nascimento de Teseu, se preparou para retornar a Atenas, deixando o filho aos cuidados do avô, o sábio Piteu e a um grande pedagogo, Cônidas, ao qual os atenienses, à época histórica, sacrificavam um carneiro, às vésperas das Theseîa, festas solenes em honra de Teseu.
Antes de partir, entretanto, escondeu ritualmente, sob enorme rochedo, sua espada e sandálias, recomendando a Etra que, tão logo o menino alcançasse a adolescência, se fosse suficientemente forte para erguer a rocha, retirasse os objetos escondidos e o procurasse em Atenas.
P. Diel oferece, a nosso ver, magnífica interpretação dessa primeira prova iniciática a que será submetido o futuro soberano da Ática.
Depois de ponderar que, como filho de Posídon, no plano mítico, Teseu percorreria o roteiro trágico de todo herói, afirma o mestre francês:
"Teseu não seria, por conseguinte, um herói, se porventura sucumbisse sem lutar, se não tivesse uma firme disposição espiritual, se o espírito, sob forma positiva, não fosse igualmente seu pai mítico. Consoante o processo simbólico, mais comumente seguido, Egeu representa simultaneamente o "pai corporal" e o rei mítico, o espírito.
Lega a seu filho as insígnias da sublimidade e da espiritualidade.
Obrigado a retornar a Atenas, esconde sob um rochedo sua espada (a arma do herói, combatente espiritual) e suas sandálias (cuja função, na marcha através da vida, é "armar", proteger o pé, símbolo da alma).
Atingida a adolescência, Teseu se mostrou capaz de seguir o apelo do espírito.
O entusiasmo da juventude lhe assegurou força suficiente para erguer a rocha, configuração do peso esmagador da terra (desejo telúrico).
Empunhou a espada, calçou as sandálias e foi ao encontro do pai, seu "pai corporal" e igualmente seu pai mítico. O herói partiu em busca do espírito.
Na realidade, tão logo atingiu a adolescência, após oferecer, segundo o costume, parte de seu cabelo a Apolo, em Delfos, o jovem foi informado por Etra do segredo de seu nascimento e do esconderijo das sandálias e da espada paterna.
Sem dificuldade alguma, como Artur ou Sigmund, que arrancaram sua Nothung, a (espada) "necessária", de uma pedra ou de uma árvore, o herói ateniense ergueu a rocha e retirou os objetos "necessários" para as provas que iriam começar.
Aconselhado pela mãe e pelo avô a dirigir-se a Atenas por mar, Teseu preferiu a rota terrestre, ao longo do Istmo de Corinto, infestado de bandidos, uma vez que, com o exílio de Héracles na Lídia, junto a Ônfale, salteadores e facínoras até então camuflados, haviam retomado suas atividades…
Competia, pois, ao herói ático reiniciar a luta para "libertar-se" e libertar a Grécia de tantos monstros.
O primeiro grande encontro foi com Perifetes, um malfeitor cruel, filho de Hefesto e Anticléia.
Coxo, apoiava-se numa muleta ou clava de bronze com que atacava os peregrinos que se dirigiam a Epidauro. Teseu o matou e fez da clava uma arma terrível na eliminação de tantos outros bandidos que encontraria pela vida.
Comentando esta primeira vitória do filho de Posídon, Paul Diel faz uma observação deveras interessante: "esta arma simbólica, a maça de Perifetes, está destinada a exercer uma função precisa na história de Teseu.
É necessário lembrar que o esmagamento sob o peso da terra, de que a clava é uma forma de expressão, pode significar tanto a ruína devida à perversidade quanto sua punição legal.
A maça na mão do criminoso é a configuração da perversidade destruidora; manejada pelo herói, converte-se em símbolo da destruição e da perversidade.
De posse da arma do malfeitor, Teseu a usará com mais frequência que a espada recebida de Egeu.
A clava de Perifetes, porém, não poderá jamais substituir legitimamente a arma "outorgada pela divindade".
Embora nas mãos de um herói, ela continua a ser uma expressão da brutalidade.
A troca de arma é o primeiro sinal de uma transformação secreta que toma corpo na atitude do filho de Etra.
A vitória sobre o assassino de Epidauro traduz a advertência ainda latente de que a ligação filial com Posídon não tardará a manifestar-se. De outro lado, também Perifetes é filho de Posídon.
Teseu vence e mata, por conseguinte, seu irmão mítico e simbólico; triunfa de seu próprio perigo, mas sua vitória permanece incompleta.
Apossando-se da arma do assassino, prepara-se para exercer o papel do vencido.
A vitória sobre Perifetes, como o próprio nome indica, é a peripécia da vida de Teseu: esse triunfo marca o princípio da ruína do herói
Diel faz uma aproximação etimológica, aliás indevida e arbitrária, entre Perifetes (o que muito fala ou o muito célebre) e peripécia (a passagem de um estado a outro contrário). Em todo caso, o objetivo do autor é chamar a atenção para a transformação, a "peripécia" de Teseu.
O segundo encontro vitorioso do filho de Etra foi com o perigoso e cruel gigante Sínis que, com músculos de aço, vergava o tronco de um pinheiro até o solo e obrigava os que lhe caíam nas mãos a mantê-lo neste estado.
Vencidos pela retração violenta da árvore, os infelizes eram lançados a grande distância, caindo despedaçados.
Não raro, Sínis vergava duas árvores de uma só vez e amarrava a cabeça do condenado à copa de uma delas e os pés à outra, fazendo a vítima dilacerar-se.
Submetido à primeira prova, Teseu vergou o pinheiro com tanta força, que lhe quebrou o tronco; e depois subjugou Sínis, amarrou-o e o submeteu à segunda prova, despedaçando-o no ar.
Em honra do arqueador de pinheiros, como lhe chama Aristófanes, que era igualmente filho de Posídon, Teseu teria instituído os Jogos Ístmicos, considerados como os agônes fúnebres de Sínis.
Acrescente-se que essa personagem tinha uma filha, chamada Perigune, que se escondera numa plantação de aspargo, enquanto seu pai lutava com Teseu. Unindo-se, depois, ao herói ateniense, foi mãe de Melanipo, que, por sua vez, foi pai de Ioxo, cujos descendentes tinham devoção particular pelos aspargos, aos quais, afinal das contas, deviam o fato de "ter nascido".
Prosseguindo em sua caminhada, o jovem herói enfrentou a monstruosa e antropófaga Porca de Crômion, filha de Tifão e Équidna e que se chamava Féia, nome de uma velha bruxa que a criara e alimentava.
O filho de Egeu a eliminou com um golpe de espada.
Consoante Chevalier e Gheerbrant, a Porca é o símbolo da fecundidade e da abundância, rivalizando, sob esse aspecto, com a vaca.
Divindade selênica, a Porca é a mãe de todos os astros, que ela devora e devolve alternadamente, se são diurnos ou noturnos, para permitir-lhes viajar pela abóbada celeste. Desse modo, engole as estrelas, ao aproximar-se a aurora e as pare novamente ao crepúsculo, agindo de maneira inversa com seu filho, o Sol.
Vítima predileta de Deméter, a Porca simboliza o princípio feminino, reduzido à sua única prerrogativa de reprodução.
No caso em pauta, a Porca de Crômion configura o princípio feminino devorador.
Tendo chegado às Rochas Cirônicas, Teseu enfrentou o assassino e perverso Cirão. Filho de Pélops ou Posídon, segundo alguns mitógrafos, instalou-se estrategicamente à beira-mar, nas terras de Mégara, nos denominados Rochedos Cirônicos, por onde passava a estrada, ladeando a costa; obrigava os transeuntes a lavarem-lhe os pés e depois os precipitava no mar, onde eram devorados por monstruosa tartaruga.
Teseu, em vez de lavar-lhe os pés, o enfrentou vitoriosamente e jogou-lhe o cadáver nas ondas, para ser devorado pela tartaruga-gigante.
Existe uma variante, segundo a qual Cirão era filho não de Pélops ou Posídon, mas de Caneto e Heníoque, filha de Piteu.
Nesse caso, Cirão e Teseu eram primos germanos. Supunha-se, por isso mesmo, que, para expiar esse crime, Teseu fundara, não em honra de Sínis, mas em memória do primo, os Jogos Ístmicos.
Para Paul Diel, Cirão é um símbolo muito forte:
"Esse gigante monstruoso obrigava os que lhe caíam às mãos, os viajantes (da vida), a lavar-lhe os pés, isto é, forçava-os à servidão humilhante, na qual a banalização mantém os vencidos. O homem, escravo da banalização, é forçado a servir ao corpo, e a exigência de Cirão simboliza esta servidão em seu aspecto mais humilhante. "Lavar os pés" é um símbolo de purificação. Mas esse ato de purificar a alma morta do monstro banal (banalização — morte da alma), em vez de significar uma autopurificação, vale apenas como um trabalho insensato, simples pretexto para eliminação da vítima.
Importa lembrar que o termo "banalização", conforme apontou Gaston Bachelard em seu prefácio ao Symbolysme dans la Mythologie Grecque, é empregado por Diel para refletir "o esquecimento das necessidades da alma em favor exclusivo das necessidades do corpo"
O monstro (a banalização), sentado no topo de um rochedo, enquanto sua infeliz vítima está absorvida na tarefa humilhante, precipita-a no abismo do mar profundo, onde será devorada por gigantesca tartaruga.
O rochedo e os abismos marinhos são símbolos já suficientemente explicados. Quanto à tartaruga, seu traço mais característico é a lentidão de movimentos. Imaginada como monstruosa e devoradora, retrata o aspecto que é inseparável da agitação banalmente ambiciosa: o amortecimento de qualquer aspiração.
A quinta e arriscada tarefa de Teseu foi a luta com o sanguinário Damastes ou Polipêmon, apelidado Procrusto, isto é, "aquele que estica".
O criminoso assassino usava de uma "técnica" singular com suas vítimas: deitava-as em um dos dois leitos de ferro que possuía, cortando os pés dos que ultrapassavam a cama pequena ou distendia violentamente as pernas dos que não preenchiam o comprimento do leito maior.
O herói ático deu-lhe combate e o matou, preparando-se para a sexta vitória contra o herói eleusino Cércion, filho de Posídon ou de Hefesto e de uma filha de Anfíction. O gigante de Elêusis obrigava os transeuntes a lutarem com ele e, dotado de força gigantesca, sempre os vencia e matava.
Teseu o enfrentou: levantou-o no ar e, lançando-o violentamente no solo, o esmagou.
Cércion é apenas mais um primo liquidado por Teseu, mas Procrusto merece um ligeiro comentário: reduzindo suas vítimas às dimensões que desejava, o "monstro de Elêusis" simboliza "a banalização, a redução da alma a uma certa medida convencional".
Trata-se, no fundo, como asseveram, com propriedade, Chevalier e Gheerbrant, da perversão do ideal em conformismo.
Procrusto configura a tirania ética e intelectual exercida por pessoas que não toleram e nem aceitam as ações e os julgamentos alheios, a não ser para concordar.
Temos, assim, nessa personagem sanguinária, a imagem do poder absoluto, quer se trate de um homem, de um partido ou de um regime político.
Vencida a primeira etapa, derrotados os monstros que a ele se opuseram, do Istmo de Corinto a Elêusis, o herói chegou aos arredores de Atenas.
Com tanto sangue parental derramado, Teseu dirigiu-se para as margens do rio Cefiso, o pai de Narciso, onde foi purificado pelos Fitálidas, os ilustres descendentes de um herói epônimo ateniense, Fítalo. Coberto com uma luxuosa túnica branca e com os cabelos cuidadosamente penteados (na realidade indumentado femininamente), o herói foi posto em ridículo por uns pedreiros que trabalhavam no templo de Apolo Delfínio.
Sem dizer palavra, Teseu ergueu um carro de bois e atirou-o contra os operários.
Feito isto, penetrou incógnito na sede de seu futuro reino, mas, apesar de não se ter identificado, precedia-o uma grande reputação de destruidor de monstros, pelo que o rei temeu por sua segurança, pois que Atenas vivia dias confusos e difíceis. Medéia, que se exilara na cidade, com o fito de dar a Egeu uma "bela descendência", fizera uso de filtros diferentes: casara-se com o rei e propriamente se apossara das rédeas do governo.
Percebendo logo de quem se tratava, a mágica da Cólquida, sem dar conhecimento a Egeu de quanto sabia, mas, pelo contrário, procurando alimentar-lhe o medo com uma rede de intrigas em torno do recém-chegado, facilmente o convenceu a eliminar o "perigoso estrangeiro", durante um banquete que lhe seria oferecido. Com pleno assentimento do marido, Medéia preparou uma taça de veneno e colocou-a no lugar reservado ao hóspede.
Teseu, que ignorava a perfídia da madrasta, mas querendo dar-se a conhecer de uma vez ao pai, puxou da espada, como se fosse para cortar a carne, e foi, de imediato, reconhecido por Egeu.
Este entornou o veneno preparado pela esposa, abraçou o filho diante de todos os convivas e proclamou-o seu sucessor.
Quanto a Medéia, após ser repudiada publicamente, mais uma vez foi execrada e exilada, dessa feita, para a Cólquida.
A atitude de Medéia em relação a Teseu, embora não se possa justificar, pode ser explicada: temendo, de um lado, que o amor do marido fosse repartido com o filho (Medéia sempre viveu em desamor) e receando, de outro, perder o poder, coisa de que a mulher é muito ciosa, quando o detém, resolveu novamente tomar uma atitude extrema. Quanto ao destino da ex-esposa de Jasão e Egeu, pouco se conhece. Sabe-se, apenas, tendo retornado à Cólquida, matou a seu tio Perses, que lhe havia destronado o pai Eetes, que ela, aliás, recolocou no trono.
Existe uma variante, certamente devida aos trágicos, no que se refere ao reconhecimento de Teseu pelo pai.
Conta-se que, antes de tentar o envenenamento do enteado, Medéia o mandou capturar o touro gigantesco que assolava a planície de Maratona e que não era outro senão o célebre Touro de Creta, objeto do sétimo Trabalho de Héracles.
Apesar da ferocidade do animal, que lançava chamas pelas narinas, o herói o capturou e, trazendo-o peado para Atenas, ofereceu-o em sacrifício a Apolo Delfínio. Ao puxar a espada para cortar os pêlos da fronte do animal, como estipulavam os ritos de consagração, foi reconhecido pelo pai.
O episódio da captura do Touro de Maratona é significativo para Diel:
Capturando e matando o animal, símbolo da dominação perversa, Teseu dá provas de que pode governar e, por isso mesmo, é convidado a compartilhar do trono com Egeu, "seu pai corporal, símbolo do espírito".
Foi durante a caçada desse touro que se passou a estória de Hécale, assunto de um poema homônimo de Calímaco de Cirene.
Hécale era uma anciã, que habitava o campo e teve a honra de hospedar o herói na noite que precedeu a caçada ao Touro de Maratona.
Havia prometido oferecer um sacrifício a Zeus, se Teseu regressasse vitorioso de tão arrojada empresa. Ao retornar, tendo-a encontrado morta, o filho de Egeu instituiu em sua honra um culto a Zeus Hecalésio.
Se bem que marcado, aliás como todo herói, pela hýbris e por um índice normal de enfraquecimento, Teseu, com a captura e morte do Touro de Maratona, provará dentro em breve a todos os seus súditos que a força que subsiste nele resulta de sua timé e areté, vale dizer, de sua ascendência divina.
Com o espírito bem armado e a alma protegida, o filho de Posídon soube e saberá, graças à inocência de sua juventude, ultrapassar todas as barreiras que ameaçavam barrar-lhe a caminhada para o "trágico e para a glória".
Uma vez reconhecido pelo pai e já compartilhando do poder, teve logo conhecimento da conspiração tramada pelos primos e, de imediato (o herói nasceu para o movimento e para as grandes e perigosas tarefas) se aprestou para a luta. Os Palântídas, que eram cinqüenta, inconformados com a impossibilidade de sucederem a Egeu no trono de Atenas, resolveram eliminar Teseu.
Dividiram suas forças, como bons estrategistas, em dois grupos: um atacou a cidade abertamente e o outro se emboscou, procurando surpreender pela retaguarda.
O plano dos conspiradores foi, todavia, revelado por seu próprio arauto, Leos, e Teseu modificou sua tática: massacrou o contingente inimigo emboscado e investiu contra os demais, que se dispersaram e foram mortos.
Relata-se que, para expiar o sangue derramado de seus primos, o herói se exilou, passando um ano em Trezena.
Esta é a versão seguida por Eurípides em sua tragédia, belíssima por sinal, Hipólito Porta-Coroa. Mas, como o poeta ateniense acrescenta que Teseu levara em sua companhia a Hipólito, o filho do primeiro matrimônio com Antíope, uma das Amazonas, já falecida, bem como a segunda esposa, Fedra, que se apaixonara pelo enteado, dando origem à tragédia, segue-se que a "cronologia" foi inteiramente modificada por Eurípides.
Com efeito, colocar a expedição contra as Amazonas antes do massacre dos Palântidas é contrariar toda uma tradição mítica.
Em todo caso, como diz Horácio:
Pictoribus atque poetis
quidlibet audendi semper fuit aequa potestas.
Os pintores e os poetas
Sempre gozaram do direito de usar quaisquer liberdades…
Foi por "essa época" que Teseu se viu no dever de enfrentar novo e sério problema. Com a morte de Androgeu, filho de Pasífae e Minos, rei de Creta, morte essa atribuída indiretamente a Egeu — que, invejoso das vitórias do herói cretense nos Jogos que mandara celebrar em Atenas, o enviara para combater o Touro de Maratona — eclodiu uma guerra sangrenta entre Creta e Atenas.
A morte de Androgeu se deveria, narra uma variante, não a Egeu, mas aos próprios atletas atenienses, que, ressentidos com tantas vitórias do filho de Minos, mataram-no.
Haveria, por outro lado, um motivo político, pois que Androgeu teria sido assassinado por suas ligações com os Palântidas.
De qualquer forma, Minos, com poderosa esquadra, após apossar-se de Mégara, marchou contra a cidade de Palas Atená.
Como a guerra se prolongasse e uma peste (pedido de Minos a Zeus) assolasse Atenas, o rei de Creta concordou em retirar-se, desde que, anualmente, lhe fossem enviados sete moços e sete moças, que seriam lançados no Labirinto, para servirem de pasto ao Minotauro.
Teseu se prontificou a seguir para Creta com as outras treze vítimas, porque, sendo já a terceira vez que se ia pagar o tributo ao rei cretense, os atenienses começavam a irritar-se contra Egeu.
Relata-se ainda que Minos escolhia pessoalmente os quatorze jovens e dentre eles o futuro rei de Atenas, afirmando que, uma vez lançados inermes no Labirinto, se conseguissem matar o Minotauro, poderiam regressar livremente à sua pátria.
continua...

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